pequenas pausas

Vim, porque, às vezes, é isso que eu faço: venho pra cá. E apesar dessa distância entre São Paulo e Santa Catarina, eu finjo que ela não existe, finjo que é rápido e alcançável quando quero.

Aqui os passarinhos são mais felizes e me recebem em euforia como se a minha chegada fosse sempre especial, aqui os cachorros de rua são blasées, amigáveis, felizes como... como cachorros felizes devem ser.

Vim visitar os amigos que me abraçam como se eu estivesse sempre aqui, não falam da distância, não se comovem por pouca coisa, fazem perguntas gerais e específicas,  ajustam meu casaco ao corpo, colocam meu cabelo pra trás da orelha, quando me abraçam falam do meu perfume...

O ar cheira a peixe assado.

H. faz uma caipirinha de limão da terra que acabou de pegar no quintal, tempera o peixe com zimbro, coloca flores que colheu do jardim nos pequenos vasos espalhados pela casa.

Como é bom estar em casa, a casa que viu em sonhos tantas vezes, a casa que rabiscamos na areia, depois vi traçada na tela no computador e não entendi... depois uma parede após outra, a terra, as árvores a grama as orquídeas os bichos, o pé de maracujá, a bananeira...

Uma pessoa deva estar preparada pra tudo nesta vida, até pra ser feliz. Mesmo que seja momentâneo, mesmo que seja aqui e agora.

O jantar quase silencioso, nem tão silencioso que fique esquisito, mas também sem conversas bobas por falta de assunto.

Eu sou este ser terrivelmente comum e vão, cabelo sempre bagunçado, unhas lascadas e curtas, comentários engraçados sobre coisas impensadas, julgamentos tortos, a casa sempre semi-organizada, a pilha de livros, as roupas espalhadas.

Sentada com as pernas enroladas debaixo de mim num sofá enorme de frente para a varanda de cortinas brancas e esvoaçastes, daqui ouço os passarinhos, o vento, às vezes a gata passa apressada atendendo ao som que só ela e outros gatos ouvem.

Viro a página do livro, anoto algo no iphone, escrevo uma coisinha. Vivo neste mundo de definições e sou intrinsecamente, não definida, minha vida e eu.

As folhas das árvores que se agitam, a cama de lençóis brancos, travesseiros altos... respiro profundamente, respiro fundo...

Na madrugada a janela aberta traz um cheiro de mar...
não há planos por aqui, porque somos indefinidos e gostamos de ser assim, quando estamos aqui, gostamos assim.

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