Foi mais ou menos assim...

Eu não fui uma menina. Fui uma criança. A sexta de sete filhos, mistura engraçada de moleque travesso, menina descalça, só em calcinhas, correndo como uma doida atrás de pipa, pião e bola; brincadeiras de rua, trepada ao longo do dia num pé de abacateiro.

Tinha joelho ralado, cabelo fino e despenteado, comia pouco e tirava energia pra tudo Deus sabe lá de onde, talvez do açúcar dos muitos doces que eu comia, era uma coisa maluca, que passava sempre voando entre cadeiras, por baixo da mesa da cozinha, pulando muro, sobrevoando o quintal, aterrizando num monte de terra ou em cima do cachorro. Uma varinha de pau de magricela que era, tímida, doida e palhaçenta! linda não era, mas era graciosa, meiga, morena e sorria pra tudo.

Tinha poucas bonecas, que logo perdiam os olhos e as roupas, uns zumbis que eu guardava...na verdade escondia numa caixa em baixo da cama. Mas tive uma guitarra, presente pago por meu tio Ciço, que me levou à loja e disse: escolhe você sozinha o que te faz feliz.

Era impossível alguém me achar quando resolvia brincar de esconde esconde. Im-pos-sí-vel! Usei kichute e conga, (Estou em frente ao espelho e minhas irmãs me vestem de princesa, um vestido azul claro com uma fita de cetim branca atada a cintura, minúsculas flores em tecido-veludo em diversos tons de azul salpicam pela saia que desce até o joelho, uma fina meia branca, delicados sapatos com o fecho do lado, na cor “beige-pérola”, uma pequena presilha em formato de borboleta, bate asas aflitas, e insiste em escorregar, separa de lado os cabelos finos, e a mais velha repetindo “a meia não pode rasgar, o laço não pode desfazer! o cabelo tem que ficar assim até o final da festa!” a emoção, o medo de sentar e o frio na barriga.) esfolava a mão tentando frear o carrinho de rolimã. Aprendi sozinha a andar de bicicleta-de-adulto, que eu pegava escondido na casa de um primo. Me afoguei várias vezes no rio, no mar, e em piscinas, mas nunca pedi pinico. Aprendi a "nadar" aos 8 anos, a andar a cavalo aos 10, e aos 11, a pular de pedras com 4 metros altura até bater com os pés no fundo de areia e emergir do mar, tudo num só fôlego. Meu dia era na rua, na terra batida, na areia da praia, enfiada no meio da plantação de mandioca que o pai mantinha no quintal... Adorava quando a mãe cozinhava na panela de ferro no fogo de chão, ficava em volta até a última brasa apagar. Apanhava até quando me machucava, as palmadas foram tantas e vinham de todos os lados, eu nunca chorava. Comia jaca a colheradas, que era o melhor jeito dela não grudar em tudo, meu pai falava.

Lembrei, que depois da guitarra, ganhei um outro brinquedo moderno, da marca Estrela, o cine-show, que projetava desenhos em slides na parede, ai eu já morava numa outra casa que não tinha árvores, depois de assistir os slides mil vezes, resolvi pegar os poucos negativos de fotos que minha mãe guardava numa caixa em cima do guarda-roupa e enfiá-los na tal projetora de brinquedo. Ui! foram muitos os tabefes que me fizeram até sentir saudades do quintal e da brincadeira de ficar invisível. Mas, foi a partir daí que me apaixonei pelo cinema.

O primeiro beijo de língua foi aos 11, apenas por curiosidade, beijei e corri pra frente do espelho, a espera da grande mudança. (?)

Gostava de ler. Meu primeiro livro foi um romance, aos 12, tenda dos milagres de Jorge Amado, depois desse nunca mais parei...

A primeira paixão tive aos 15, ele me viu correndo só de calcinhas quando eu tinha 6 anos e fazia questão de me lembrar da cena, segui apaixonada até os 18 por ele.

(Foi mais ou menos assim... mas com certeza foi mais. Ah, foi muito mais...)

3 comentários:

Daniela disse...

adorei ... muito muito ... Dona verinha Tia vé ... agnt lembra e tem saudade!!

Li disse...

Amei!!
Dá pra sentir a emoção - e as nossas próprias lembranças se confundem com as tuas...
beijo!

Beti Copetti disse...

Adorei a historinha! Já vou linkar ao meu blog!