a gente só vê quando abre os olhos!















E o almoço em família? todos sempre riam assim antes?




Quando foi que as crianças cresceram?


o passeio com o cachorro e o menino, foi sempre tão leve?






















a pose pra foto, a mãe sempre foi tão vaidosa?









Quando foi mesmo que eu deixei tudo isso pra trás?
quando foi que eu soltei tão subitamente das amarras dessa cidade?

Quando foi que eu começei a sentir-me livre desse ir e vir frenético,
dessa grana? desse asfalto, desse zunido, dessas vilas, desses prédios, desse vício, desse ego, desse querer de tudo?

Quando foi que eu começei a não querer mais o
fast-food? o jogo rápido, as discussões carregadas de afetação e emotividade? quando foi a última vez que a violência esbarrou em mim? quando foi que o relógio deixou de fazer hora no meu dia? que o dedo em riste não ousou mais? Já nem lembro mais quando foi a última discussão pela vaga no shopping-cheio.

E agora, quando volto é sempre assim, eu ando num campo quântico?



A cidade me parece tão limpa, o centro velho me parece só antigo, o concreto é protegido por anciãos verdes e silenciosos, o trânsito é só um bom motivo pra desafinar junto uma música no carro, pra paquera despretenciosa.


Eu passo-passeio onde antes eu corria-com-pressa, eu subo em prédios gigantes que eu pequena mal enchergava da rua, eu caminho pelos viadutos calmamente, eu aprecio o que eu nem percebia antes existir.


Lentamente e em pé eu como a pizza-de-balcão suculenta, o chop escuro na noite feliz.


E o almoço em família? todos sempre riam assim antes?

o passeio com o cachorro e o menino, foi sempre tão leve?

Quando mesmo que as crianças cresceram?

A pose pra foto, a mãe sempre foi tão vaidosa?


a sala de aula com risadas,
e quando foi que os cabelos do mano começaram a embranquecer?

no domingo
A preguiça no pijama
o pastel queijo-que-puxa
o prato farto de feijoada

quando foi que eu passei a não ter mais preguiça de viver?
quando foi que eu começei a desviar das flechadas sem me machucar?
quando foi que eu parei de responsabilizar o outro?
quando foi que eu passei a acreditar que um olhar silêncioso de desculpa vale mais do que qualquer monólogo caga-regra desnecessário?

...


e finalmente,
quando eu comecei a querer voltar pra minha casa?

chegar assim, num dia tranquilo de sol outonal

achar um concha perfeita na praia, e ver os barcos de pesca de tainha todos apontando numa única intuição
o marisco na casca,
o vinho no copo,
o afago da chegada,


foram sempre assim as segundas-feiras, enquanto eu dormia?


3 comentários:

Mauricio Musa disse...

Quebrando barreiras...
é o cotidiano, o cotidimes, o cotidiadia...

Vivi disse...

Que inspiração hein flor!
Adorei o texto...
Beijos... Ví

Véia da Teia disse...

Num é assim mesmo Musa? a viagem é o próprio viajante!

Viks linda! a vida inspira, vai nessa!